Capítulo Segundo
Não sabia o que era feito de ti nem tentei saber pois acentuaste indirectamente, naquele tempo, que querias o indispensável afastamento entre nós, como a culpa atroz que feria, martirizando os dias e as noites, as quais entravam doloridas. Mas foste tu quem assim o quis e, de repente, (quase) todo o nosso efémero mundo foi apagado:
– E o que se fez?
– Eu?... O que fiz por respeito ao silêncio dela? Calei-me também à espera de palavras (se elas viessem) e aí, poderia sem qualquer devaneio, dizer-lhe que continuava ali, para quando quisesse voltar a ser a pessoa que se perdeu.
Sabemos, desde que começamos a amar, desta ou daquela forma, que o nosso estável mecanismo humano se entrecruza invariavelmente num vínculo com alguém que, de forma mútua, seja capaz de receber em idiossincrasia amorosa e alimentar as estimulações sensoriais e psicológicas, para uma excelente motivação e uma média manutenção. Dopados de invariáveis inconstantes (nesse rodeo de marcas de patas), vimo-nos obrigados a vegetar polimérase por descrição de motivos desconhecidos, marcas para todo um milénio e um apagão amnésico falso e, como num dissecar cerebral, observamos (quase) incrédulos, que fomos drogados ou que somos portadores de uma qualquer doença mental desconhecida. Fitamos cegos as instâncias do nosso metabolismo num tiro de lupa, para sabermos com que armas podemos desmembrar esse tipo de enzima e facultar a nós próprios, a segurança parcial de um bem-estar a curto prazo que, nos bloqueie o desregramento completo dos sentidos. Mas estamos estupidamente cegos e não sugerimos sequer o isolamento de diferias metamórficas físicas, para compreendermos que é despropositado afirmar que um homem, não possa amar eternamente a mesma mulher, quanto afirmar, que um organista precisa de diversos órgãos de tubos, para a mesma composição musical e, instala-se o caos assombroso do individualismo dual e do puro egoísmo amoroso, cujo nos vai traçando, a pinceladas grossas, um profundo amor. Desconcertante. Denso. Louco! Até esse egoísmo irresponsável tomar formas grotescas – um Slave Auction racial – e revelar-se em sonantes desfalques perante o amor. Aquilo que se ama em solidariedade invulgarmente individual, não querendo nem deixando (quase) a devassidão inocente de quem se ama, ser violada; transformar-se num anjo-da-guarda que vigia – nem que irrealmente –, a pessoa amada em todas as suas permanências.
Foi o que te fiz, meu Amor. O que fiz a mim para pensar ter-te a ti.
Sentia-me francamente perdido. Sem conseguir encontrar-me dentro de mim. Sem perceber se, afinal de contas, me conhecia assim tão bem. Ou menos mal. Não sabia… A sério que não sabia porque é que o mundo andava desvairadamente ao sabor duma cardiopatia sanguínea. Porque não me conhecia ou porque simplesmente, fazia questão em ser o avesso insistente? Com certeza, naquela altura, não pensava com clareza e tudo era um complexo instante e eu, confuso e preocupado, elevava-te até ao mais alto grau de divino e idolatrava-te com missivas niilistas, as quais sabia que não iam dar em nada.
Por vezes, o caminhar por entre a multidão, aliviava-me o interior. Ver rostos de belezas estranhas, pessoas de gosto composto, roupas e objectos interessantes, facultava-me um paladar corpóreo menos dormente. Sentia-me aliviado. E queria que estivesses à minha espera, mas tu desapareceste. Deixaste de te lembrar do meu nome nesse sentido que eu parecia ter traçado. (Parecia.) Fechaste-me a porta por detrás das costas. Mas que importa isso?... Afinal de contas, vivemos num mundo de impossibilidades e contrariedades. Cada um ajusta-se às suas particulares dificuldades e necessidades. E existindo a necessidade ou a tendência para o absurdo, por mais que procurasse uma resposta, não conseguia encontrá-la. Vasculhava talvez demais… Racionalmente, encontrar uma resposta para o absurdo, é absurdamente irracional:
– E portanto?...
O dia lá fora já nasceu com toda a certeza. O silêncio condensa-se em movimento e o som dos carros, agita as ruas. Eu, morto de sono, volto a enrolar-me nos lençóis e a fechar os olhos. Respiro fundo. Ninguém em casa.
Depois do bar, subimos a rua e fomos desembocar à Praça do Giraldo, onde actuava um grupo qualquer da programação do Viva à Rua para uma multidão de cabeças atentas. Tecemos algumas críticas a uma matulona gorda que dançava em cima do palco com uma túnica e, como estava frio, descemos a Rua Serpa Pinto e entrámos no teu jipe. Não fomos logo directamente para casa. Quando dei por mim, estávamos por debaixo desse pano escuro da noite, junto dessa casa abandonada e em ruínas, perto da zona industrial. Um carro buzina insistentemente.
Não sei porquê mas, de repente, vi-me meter a mão por baixo da tua blusa e senti-te a pele das costas e do pescoço. Era suave. (Sim, era.) E quente. (= excitação psicológica.) Bastante, meu Amor!
Acordei:
– Portanto… Arrependo-me daquela noite em que, por decisão de emoções precipitadas, lhe revelei o meu sentimento porque, apesar de tudo, eu não passava daquele que lhe fazia companhia, nos jantares de refeitório e depois, sentados no banco de mármore. Daquele a quem tu decidiste contar coisas que te perturbavam e das quais necessitavas separar-te, pelo menos, através de mim, conscientemente. Eu, que até aí fora capaz de nunca olhar para ti como depois olhei, nunca, mas nunca, pus em causa a tamanha consideração que tinhas por mim porque, e sou sincero, foste quem eu nunca tive. Aquela a quem e enquanto presença, eu podia dizer coisas absurdas e fazer caretas grosseiras. Mas isso acabou. Porque estabeleci um desejo e foi-me recusado. Tão ferozmente, que se instalou no âmago do meu corpo, uma revolta sombria cuja, ainda te vendo como um inebriante odor físico, me conteve e manobrou os movimentos. Não era capaz de viver sem e muito menos contigo. Essa era a verdade. Fiz a tua imagem à minha maneira. Construí a tua pessoa através das minhas intuições capazes irreais, contudo, esqueci-me que tu eras tu, a qual decidia por si e estampei-me. O que eu podia era abrir os olhos e ver… Que contínuo empalidecer, nesse áspero caminho. Não podia mais, era só isso. E se à tua frente, era puro aço, era fachada apenas, pois no fundo, era o silêncio das lágrimas que não exprimia aparentemente. Odiei-me por te sentir tanto e por te ter tão longe! Odiei-me porque não podia suportar por mais tempo (sempre o tempo), esse manancial que me enchia as veias, num contínuo e diametral bombear peitoral. Estava cheio de ti. A transbordar da tua ausência presente. Entorpecido. Com o corpo encharcando a t-shirt e as calças, a cheirar a ti. Os olhos vazados de água faiscante, cujo objectivo eram apenas para te verem, nem que sobre formas holográficas, como um fantasma que não existia mas que me seguia para me importunar. Abandonei-me por te ter conhecido! Os teus seios, hirtos e pequenos, escondidos por baixo da blusa. Da saudade utópica dos teus braços que me sufocavam os sonhos. Da palma da tua mão, a pele dos teus pulsos, os dedos delicados e longos, os dentes num sorriso sempre meio tímido, mas atrevido. O teu riso, o teu humor, a tua inteligência cristalina. Odiei-me por gostar tanto de ti!
O meu amor tornou-se numa triste fantasia onde, e desculpa-me se o digo, se enunciou a aflição do ódio e pela sua soberania que começou a tomar lugar, com devota devoção, pelas palmas das minhas mãos, numa irracionalidade que soçobrou e a qual me permitiu ver melhor.
Naquela altura, o ódio (quer por amar-te tanto, quer por não saberes o que fazeres comigo), tornou-se no sentimento mais próximo daquilo que sentia por ti, nessa ténue linha que o separava do amor, porque fui agredido como os curdos contra os turcos e resignei-me a deixar-te em paz, infligindo-te um total desvario, capaz da violência de uma camisa-de-forças.
Os nossos jantares começaram a ser a intimação violenta dos meus recalcamentos e eram passados em silêncio contigo, por vezes, a perguntar se estava chateado com alguma coisa. Em particular, contigo.
Existia a inevitabilidade de eu querer gritar a plenos pulmões e força vocal, tudo o que me enchia a alma (nesse interior ressequido). Sabes?... Estava farto! Cansado da estúpida vida que tinha ou levava na altura. A qual, de algum modo, não era rotineira. Sabia que, num estalar de dedos, poderia agarrar essa Nova Vida que alguns procuram obstinados, porém, não queria fazê-lo. Por comodismo. Conformidade. Por mim ou porque o sonho em que estava acordado, me parecia ser bem mais simpático do que a realidade, cuja supostamente não via. Ironicamente, por esses instantes, eu esperava… Não fazia mal esperar. Nem que a tua ausência, entre o falso último adeus e aquele que havia de vir, fosse doloroso ou tivesse semelhanças a arrependimento. Eu esperava! Não tinha importância. Estava tudo bem na mesma. Só não queria continuar a odiar a vida por ter de ser vivida, nem tornar-me nesse ser cujo objectivo, me surgia numa luz radiosa, para se extinguir na noite eterna. Estava! Era esse o meu propósito… Esperar-te! Golpear-me até me desfazer como vidro.
As palavras vieram imolar com um: "Sinto a tua falta também. Temos de falar.” Sim, tínhamos muito que conversar. Milhões de palavras para serem ditas regradamente e esperar pelo mútuo entendimento, como uma oblata duma multidão de velas acesas. Esperar respostas a uma centena de perguntas. E tudo voltou ao normal. Jantávamos nesse asqueroso refeitório e íamo-nos sentar no banco de mármore, contudo, passaram-se dias até que eu (se nunca fosse eu) te pedi para nos encontrarmos fora da empresa. Para desfiarmos o grande mal-entendido ou o que se lhe pudesse chamar: "Então vai lá. Se queres tanto…”
Combinou-se o dia e a hora.
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Não sabia o que era feito de ti nem tentei saber pois acentuaste indirectamente, naquele tempo, que querias o indispensável afastamento entre nós, como a culpa atroz que feria, martirizando os dias e as noites, as quais entravam doloridas. Mas foste tu quem assim o quis e, de repente, (quase) todo o nosso efémero mundo foi apagado:
– E o que se fez?
– Eu?... O que fiz por respeito ao silêncio dela? Calei-me também à espera de palavras (se elas viessem) e aí, poderia sem qualquer devaneio, dizer-lhe que continuava ali, para quando quisesse voltar a ser a pessoa que se perdeu.
Sabemos, desde que começamos a amar, desta ou daquela forma, que o nosso estável mecanismo humano se entrecruza invariavelmente num vínculo com alguém que, de forma mútua, seja capaz de receber em idiossincrasia amorosa e alimentar as estimulações sensoriais e psicológicas, para uma excelente motivação e uma média manutenção. Dopados de invariáveis inconstantes (nesse rodeo de marcas de patas), vimo-nos obrigados a vegetar polimérase por descrição de motivos desconhecidos, marcas para todo um milénio e um apagão amnésico falso e, como num dissecar cerebral, observamos (quase) incrédulos, que fomos drogados ou que somos portadores de uma qualquer doença mental desconhecida. Fitamos cegos as instâncias do nosso metabolismo num tiro de lupa, para sabermos com que armas podemos desmembrar esse tipo de enzima e facultar a nós próprios, a segurança parcial de um bem-estar a curto prazo que, nos bloqueie o desregramento completo dos sentidos. Mas estamos estupidamente cegos e não sugerimos sequer o isolamento de diferias metamórficas físicas, para compreendermos que é despropositado afirmar que um homem, não possa amar eternamente a mesma mulher, quanto afirmar, que um organista precisa de diversos órgãos de tubos, para a mesma composição musical e, instala-se o caos assombroso do individualismo dual e do puro egoísmo amoroso, cujo nos vai traçando, a pinceladas grossas, um profundo amor. Desconcertante. Denso. Louco! Até esse egoísmo irresponsável tomar formas grotescas – um Slave Auction racial – e revelar-se em sonantes desfalques perante o amor. Aquilo que se ama em solidariedade invulgarmente individual, não querendo nem deixando (quase) a devassidão inocente de quem se ama, ser violada; transformar-se num anjo-da-guarda que vigia – nem que irrealmente –, a pessoa amada em todas as suas permanências.
Foi o que te fiz, meu Amor. O que fiz a mim para pensar ter-te a ti.
Sentia-me francamente perdido. Sem conseguir encontrar-me dentro de mim. Sem perceber se, afinal de contas, me conhecia assim tão bem. Ou menos mal. Não sabia… A sério que não sabia porque é que o mundo andava desvairadamente ao sabor duma cardiopatia sanguínea. Porque não me conhecia ou porque simplesmente, fazia questão em ser o avesso insistente? Com certeza, naquela altura, não pensava com clareza e tudo era um complexo instante e eu, confuso e preocupado, elevava-te até ao mais alto grau de divino e idolatrava-te com missivas niilistas, as quais sabia que não iam dar em nada.
Por vezes, o caminhar por entre a multidão, aliviava-me o interior. Ver rostos de belezas estranhas, pessoas de gosto composto, roupas e objectos interessantes, facultava-me um paladar corpóreo menos dormente. Sentia-me aliviado. E queria que estivesses à minha espera, mas tu desapareceste. Deixaste de te lembrar do meu nome nesse sentido que eu parecia ter traçado. (Parecia.) Fechaste-me a porta por detrás das costas. Mas que importa isso?... Afinal de contas, vivemos num mundo de impossibilidades e contrariedades. Cada um ajusta-se às suas particulares dificuldades e necessidades. E existindo a necessidade ou a tendência para o absurdo, por mais que procurasse uma resposta, não conseguia encontrá-la. Vasculhava talvez demais… Racionalmente, encontrar uma resposta para o absurdo, é absurdamente irracional:
– E portanto?...
O dia lá fora já nasceu com toda a certeza. O silêncio condensa-se em movimento e o som dos carros, agita as ruas. Eu, morto de sono, volto a enrolar-me nos lençóis e a fechar os olhos. Respiro fundo. Ninguém em casa.
Depois do bar, subimos a rua e fomos desembocar à Praça do Giraldo, onde actuava um grupo qualquer da programação do Viva à Rua para uma multidão de cabeças atentas. Tecemos algumas críticas a uma matulona gorda que dançava em cima do palco com uma túnica e, como estava frio, descemos a Rua Serpa Pinto e entrámos no teu jipe. Não fomos logo directamente para casa. Quando dei por mim, estávamos por debaixo desse pano escuro da noite, junto dessa casa abandonada e em ruínas, perto da zona industrial. Um carro buzina insistentemente.
Não sei porquê mas, de repente, vi-me meter a mão por baixo da tua blusa e senti-te a pele das costas e do pescoço. Era suave. (Sim, era.) E quente. (= excitação psicológica.) Bastante, meu Amor!
Acordei:
– Portanto… Arrependo-me daquela noite em que, por decisão de emoções precipitadas, lhe revelei o meu sentimento porque, apesar de tudo, eu não passava daquele que lhe fazia companhia, nos jantares de refeitório e depois, sentados no banco de mármore. Daquele a quem tu decidiste contar coisas que te perturbavam e das quais necessitavas separar-te, pelo menos, através de mim, conscientemente. Eu, que até aí fora capaz de nunca olhar para ti como depois olhei, nunca, mas nunca, pus em causa a tamanha consideração que tinhas por mim porque, e sou sincero, foste quem eu nunca tive. Aquela a quem e enquanto presença, eu podia dizer coisas absurdas e fazer caretas grosseiras. Mas isso acabou. Porque estabeleci um desejo e foi-me recusado. Tão ferozmente, que se instalou no âmago do meu corpo, uma revolta sombria cuja, ainda te vendo como um inebriante odor físico, me conteve e manobrou os movimentos. Não era capaz de viver sem e muito menos contigo. Essa era a verdade. Fiz a tua imagem à minha maneira. Construí a tua pessoa através das minhas intuições capazes irreais, contudo, esqueci-me que tu eras tu, a qual decidia por si e estampei-me. O que eu podia era abrir os olhos e ver… Que contínuo empalidecer, nesse áspero caminho. Não podia mais, era só isso. E se à tua frente, era puro aço, era fachada apenas, pois no fundo, era o silêncio das lágrimas que não exprimia aparentemente. Odiei-me por te sentir tanto e por te ter tão longe! Odiei-me porque não podia suportar por mais tempo (sempre o tempo), esse manancial que me enchia as veias, num contínuo e diametral bombear peitoral. Estava cheio de ti. A transbordar da tua ausência presente. Entorpecido. Com o corpo encharcando a t-shirt e as calças, a cheirar a ti. Os olhos vazados de água faiscante, cujo objectivo eram apenas para te verem, nem que sobre formas holográficas, como um fantasma que não existia mas que me seguia para me importunar. Abandonei-me por te ter conhecido! Os teus seios, hirtos e pequenos, escondidos por baixo da blusa. Da saudade utópica dos teus braços que me sufocavam os sonhos. Da palma da tua mão, a pele dos teus pulsos, os dedos delicados e longos, os dentes num sorriso sempre meio tímido, mas atrevido. O teu riso, o teu humor, a tua inteligência cristalina. Odiei-me por gostar tanto de ti!
O meu amor tornou-se numa triste fantasia onde, e desculpa-me se o digo, se enunciou a aflição do ódio e pela sua soberania que começou a tomar lugar, com devota devoção, pelas palmas das minhas mãos, numa irracionalidade que soçobrou e a qual me permitiu ver melhor.
Naquela altura, o ódio (quer por amar-te tanto, quer por não saberes o que fazeres comigo), tornou-se no sentimento mais próximo daquilo que sentia por ti, nessa ténue linha que o separava do amor, porque fui agredido como os curdos contra os turcos e resignei-me a deixar-te em paz, infligindo-te um total desvario, capaz da violência de uma camisa-de-forças.
Os nossos jantares começaram a ser a intimação violenta dos meus recalcamentos e eram passados em silêncio contigo, por vezes, a perguntar se estava chateado com alguma coisa. Em particular, contigo.
Existia a inevitabilidade de eu querer gritar a plenos pulmões e força vocal, tudo o que me enchia a alma (nesse interior ressequido). Sabes?... Estava farto! Cansado da estúpida vida que tinha ou levava na altura. A qual, de algum modo, não era rotineira. Sabia que, num estalar de dedos, poderia agarrar essa Nova Vida que alguns procuram obstinados, porém, não queria fazê-lo. Por comodismo. Conformidade. Por mim ou porque o sonho em que estava acordado, me parecia ser bem mais simpático do que a realidade, cuja supostamente não via. Ironicamente, por esses instantes, eu esperava… Não fazia mal esperar. Nem que a tua ausência, entre o falso último adeus e aquele que havia de vir, fosse doloroso ou tivesse semelhanças a arrependimento. Eu esperava! Não tinha importância. Estava tudo bem na mesma. Só não queria continuar a odiar a vida por ter de ser vivida, nem tornar-me nesse ser cujo objectivo, me surgia numa luz radiosa, para se extinguir na noite eterna. Estava! Era esse o meu propósito… Esperar-te! Golpear-me até me desfazer como vidro.
As palavras vieram imolar com um: "Sinto a tua falta também. Temos de falar.” Sim, tínhamos muito que conversar. Milhões de palavras para serem ditas regradamente e esperar pelo mútuo entendimento, como uma oblata duma multidão de velas acesas. Esperar respostas a uma centena de perguntas. E tudo voltou ao normal. Jantávamos nesse asqueroso refeitório e íamo-nos sentar no banco de mármore, contudo, passaram-se dias até que eu (se nunca fosse eu) te pedi para nos encontrarmos fora da empresa. Para desfiarmos o grande mal-entendido ou o que se lhe pudesse chamar: "Então vai lá. Se queres tanto…”
Combinou-se o dia e a hora.
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